A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE EM UMA NOITE EM CURITIBA DE CRISTOVÃO TEZZA
Cristovão Tezza é de Lages, Santa Catarina, mas vive em Curitiba há mais de trinta anos. É professor de Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná. Já publicou um livro de contos e dez romances. Entre eles Trapo (1988), romance que inicia a fase de sua produção literária que mais recebe crítica literária e que foi mais resenhada na imprensa. Trapo está na bibliografia do Exame de ingresso na UFPR, fato importante na canonização de uma obra. Seu último romance publicado foi Breve espaço entre luz e sombra (1988), recebendo um destaque considerável na imprensa. Hoje, Tezza escreve sua tese de doutoramento, pela USP, sobre o teórico russo Mikhail Bakhtin.
Uma noite em Curitiba, publicado em 1995, apresenta duas histórias. A história da narrativa e de seu feitor, um filho que se apropria dos arquivos de cartas que o pai, Frederico Rennon, uma baça personalidade acadêmica, deixou no computador e edita esses textos para a publicação. Nesse processo de edição, a história de como ele monta os textos do pai termina por se transformar na construção de sua própria subjetividade.
Outra história é aquela tecida por esses textos, as cartas encontradas pelo filho. Essas cartas são relatos, espécie de diário íntimo fasciculado, de um momento na vida desse eminente professor de história em que ele recupera seu passado pelo reencontro com uma mulher que marcou sua juventude e que agora muda sua vida e desencadeia um processo delirante que tem como corolário sua morte.
O tempo da escrita do filho, em outras palavras o presente da narrativa, não coincide com o presente da intriga. O filho escreve no momento em que todos os acontecimentos da história já ocorreram. A narrativa é, então, anacrônica, ou seja, o tempo do discurso não coincide com o tempo da história. Nem o sujeito narrador é o mesmo do sujeito narrado. Esse recurso narrativo interpõe, pelo menos, dois momentos distintos do sujeito que fala. No momento da narração, o narrador, apesar de o mesmo, é já outro, ele narra o que sentiu no momento do acontecimento e pode reavaliar essa reação numa perspectiva distanciada como se estivesse, ao mesmo tempo, dentro e fora de si. Procedimento já tradicional na série literária brasileira, presente em, por exemplo Dom Casmurro, São Bernardo e Grande Sertão: Veredas. Uma noite em Curitiba se constrói pela interpenetração de pelo menos três momentos de tempo: o tempo da escrita, o tempo dos acontecimentos sobre o qual pai e filho escrevem, descrevendo, cada um a seu modo, os mesmos eventos e o tempo do passado do pai, recuperado por ele nas cartas que escreve a sua amante.
A história será construída por dois pontos de vista, por dois narradores, por dois gêneros de textos diferentes que se interpenetram. A intriga, portanto, é construída a partir desses dois sujeitos. A escrita do filho é construída a partir dos efeitos sentidos por ele daquilo que ele lê nas cartas do pai. O modo como o pai lhe via, o modo como o pai via a família, o modo como o pai via a si mesmo. Nessa leitura escritura que o filho realiza das cartas, há o estabelecimento de um dialogismo que motiva mudanças no filho que podem ser surpreendidas nas transformações ocorridas na concretude de seu discurso. No início de sua narração o filho pergunta:
Por que um homem respeitável como meu pai jogaria o próprio nome no lixo? Não só o dele – o de minha mãe também. O meu não que eu ainda não tinha nome. (TEZZA, 53)
Já quase ao fim da narrativa ele descobre seu nome:
Encerrava-se coroado de êxito o Ciclo de cinema e literatura promovido pelo velho Frederico Rennon ( o novo agora sou eu) (TEZZA, 140)
Sendo assim, o filho estabelece uma relação dialógica com o pai pela apropriação que faz de seus textos. Esse diálogo se dá discursivamente. A isso Bakhtin deu o nome de dialogismo. É importante perceber que diálogo e dialogismo não são a mesma coisa. Dialogismo, despercebido, já está enraizado na linguagem antes de qualquer diálogo. É tanto produto das trocas dialógicas entre as personagens quanto um modo constituinte da própria interação entre elas. Em nossa fala outras falas falam. Não somos a origem do nosso discurso.
No romance que visamos, essas trocas dialógicas são constituintes das falas de pai e filho. O pai estabelece uma via para chegar a si mesmo intermediada pela interlocutora, Sara, sua amante. Numa de suas cartas, ele diz:
O que faço nessas madrugadas sem sono, ouvindo as portas do meu filho inútil andando pelos vazios da casa à espera que eu lhe diga uma palavra de salvação (pobre de mim!), o que eu faço é um mapa de mim mesmo, para maior segurança do passo. (TEZZA, 97)
O texto O autor e o herói (1997) é o texto bússola deste trabalho uma vez que a partir do campo estético, Bakhtin realiza uma filosofia do sujeito num constante deslize do espaço romanesco para o da vida. Numa passagem ele escreve:
... o homem tem uma necessidade estética absoluta do outro, da sua visão de mundo e da sua memória; memória que o junta e o unifica e que é a única capaz de lhe proporcionar acabamento externo. Nossa individualidade não teria existência se o outro não a criasse. (BAKHTIN, 55)
E em outra passagem:
Não é na categoria do eu, mas na categoria do outro que posso vivenciar meu aspecto físico como valor que me engloba e me acaba, e devo insinuar-me nessa categoria para ver a mim mesmo como um elemento de um mundo exterior que constitui um plástico-pictural. ... Para a minha consciência essa imagem global está dispersa na vida e não penetra no campo da minha visão do mundo exterior senão fortuitamente, de forma fragmentária, pois faltam-lhe precisamente a unidade externa e a continuidade.(BAKHTIN, 82-83)
E essa consciência de si atingida através da categoria autônoma do outro é apenas verbal, para Bakhtin. Benveniste enuncia essa idéia categoricamente no seu Problemas de lingüística geral. Ele diz que o homem não é apenas sujeito da linguagem, mas é sujeito na linguagem, desconstruindo a idéia de que a linguagem é um instrumento a ser usado. Consideremos o trecho seguinte:
Inclinamo-nos sempre para a imaginação ingênua de um período original, em que um homem completo descobriria um semelhante igualmente completo e, entre eles, pouco a pouco, se elaboraria a linguagem. Isso é pura ficção. Não atingimos nunca o homem separado da linguagem e não o vemos nunca inventando-a. Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procurando conceber a existência do outro. É um homem falando que encontramos no mundo, um homem falando com outro homem, e a linguagem ensina a própria definição de homem... É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito. (BENVENISTE, 285)
Sendo assim, duas idéias norteadoras ficam estabelecidas. O conhecimento do eu é possível através do outro. E esse conhecimento é estabelecido na e pela linguagem. O dialogismo bakhtiniano parece ser um conceito que opera com essas duas idéias. Patrick Dahlet, desenvolve essa questão:
O dialogismo bakhtiniano abala, sem dúvida, a concepção clássica de sujeito. O sujeito cartesiano, circunscrito como uma identidade permanente, por ser já de início solidário com seu pensamento, explode em Bakhtin... numa partição de vozes concorrentes, já que ele se acha, a partir de então, solidário das alteridades de seu discurso. (DAHLET, 82-83)
Escolhi dois conjuntos de trechos do romance para verificarmos como o dialogismo opera quase que na ausência de diálogo. No primeiro conjunto a ausência de diálogo é patente, no segundo a presença de dialogismo é visível.
Primeiro conjunto. Na cena, descrita por ambos, o pai desesperado por não conseguir falar com sua amante, corre a pé no meio da noite ao hotel no qual ela se encontrava. No caminho tenta de telefone público em telefone público falar com ela que ocupava a linha. O filho o segue de longe, mas quando o pai entra em um bar e pede uma cerveja, ele não resiste à possibilidade do encontro e se coloca frente ao pai. Descrevendo a cena, o filho narra:
Então meu pai levantou os olhos. Eu esperava alguma surpresa que não houve. O olhar indiferente de uma pedra:
- O que você está fazendo aqui?
Na verdade, ele não queria resposta alguma. Assim nem respondi. Puxei a cadeira e sentei, com certo desafio. Eu sempre tive medo do meu pai. Quem sabe estivesse próximo o momento de eu superar essa barreira de granito. Ele poderia começar por uma pequena e comovida confissão de fraqueza. Eu seria um pouco duro com ele, talvez até rude em uma ou outra palavra, mas tudo isso seria superado em poucos dias, como deve acontecer entre duas pessoas adultas. Não abri a boca. Ele pegou a ficha, o olhar fixo no telefone da esquina, e levantou-se. (TEZZA, 81)
O pai levanta-se volta ao telefone e de novo ao bar quando joga uma nota na mesa dizendo: pague a cerveja e rapidamente some num taxi. O pai narra esse episódio em uma de suas cartas de uma maneira figurada que concentra bem o modo como se relacionava com o filho. Ele escreve:
Eu previ o abismo de Dante avizinhando-se naquela figura rota que, com falsa timidez, começou a cercar sua vítima, um homem distinto, no caso eu. Quando o homem abriu a boca esburacada e com gestos submissos de servo de gleba atrevendo-se a dirigir a palavra ao Barão Feudal – quem sabe Ele estaria de bom humor hoje? O Barão ergueu-se inesperado, jogou uma nota excessiva na mesinha ... passou pelo servo, que escondeu a decepção com a dignidade de uma pequena tosse, e correu ao próximo telefone público .... (TEZZA, 85)
Essas duas visões da mesma cena encenam a distância muito grande entre pai e filho que nada dizem um ou outro.
Agora vejamos a proximidade discursiva nos trechos a seguir (visão de mundo, desenvolvimento do argumento, escolha vocabular). Nesse trecho o pai reflete sobre sua vida e confessa a si mesmo por intermédio de sua interlocução com a atriz:
Nada do que eu vivi me pertence. Sempre estive em outra parte, alhures, habitante de um sonho que demorava a começar, e eu esperando com o ingresso na mão suada. (TEZZA, 136-137)
Três páginas adiante o filho narra a última noite do ciclo de palestras em Curitiba. Ele tenta uma aproximação com o pai, ele pretende resgatar o pai da ilusão em que ele estava se afogando. O filho escreve:
Atravessei a rua determinado e comovido. Vou dizer a ele que ... Mas como meu pai é grande! Alto assim, ele não me vê, e eu estou quase entrando na roda de convidados, posso ouvir cada palavra daquele discurso bem humorado e elegante, ele está no ápice da vida dele, reabastecido até a alma por um único olhar, ele está verdadeiramente começando tudo de novo, e para esse espetáculo feliz nenhum de nós foi convidado – mudança drástica de cenário, papéis, direção, texto, luz, platéia. Eu chego mais perto, esbarro nos admiradores, sinto que alguém (não ele) me reconhece e abre um espaço tenso para meus passos incertos, chego mesmo a estender o braço, mais dois metros e eu toco o coração do meu pai, mas minha mão não obedece, o braço se encolhe, eu me encolho atrás, na sombra, minha roupa é escura, eu mesmo me sinto escuro, inapelavelmente infeliz, o intruso – eu não fui convidado, eu não sou convidado, nada, de fato, me pertencia. (TEZZA, 141)
O discurso do filho é altamente solidário do discurso do pai, considerando sua própria materialidade. Essa apropriação da fala do pai é um passo decisivo na construção de sua subjetividade, já que, como estabelecido anteriormente, essa construção é mediada pelo encontro com o outro e é realizada pela escritura de um romance. O que é maravilhoso nesse romance é que esse outro focado pelo narrador é seu pai, figura primitiva na construção do si-mesmo.
Referências Bibliográficas:
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BENVENISTE, Émile. Da subjetividade na linguagem. In: _____ Problemas de lingüística geral. Tradução de Maria da Glória Novak et al. São Paulo: Nacional; Edusp, 1976. p. 284-293.
DAHLET, Patrick. Dialogização enunciativa e paisagens do sujeito. In: BRAIT, Beth (org.) Bakhtin, dialogismo e a construção do sentido. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997. p. 59-87.
TEZZA, Cristovão. Uma noite em Curitiba. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.